Cumprimentando o presidente da Academia Itapemense de Letras, Doutor André Gobbo, estendo meus primeiros cumprimentos nesta academia a todas e todos os seus membros. Boa noite aos apaixonados por livros, leitura, literatura, arte e cultura que nos prestigiam nesta noite de celebração do jubileu de prata desta academia.
Cabe a mim neste primeiro discurso lançar luz ao nome e obra deste que a partir de agora será o meu patrono, o poeta catarinense Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida.
Ernani Rosas nasceu em Desterro, hoje Florianópolis, em 31 de março de 1886, filho do poeta Oscar Rosas, viveu no Rio de Janeiro desde os 3 anos de idade. Seu nome esteve arquivado por longo tempo, à margem da história, golpeado pelo esquecimento, permeado por preconceitos (Ernani era gago e homossexual). Ernani nada publicou em vida, sendo recente a descoberta de sua obra, a qual, aos poucos vem sendo publicada.
Cito aqui dez momentos marcados e datados em fontes documentais, sobre a vida do poeta:
- 1886 – a 31 de março nasce Ernani Salomão Rosas Ribeiro d’Almeida, no bairro Saco dos Limões, na capital catarinense, sendo o primeiro filho do casal Oscar Rosas e Julieta Escobar Rosas.
- 1889 – A família de Ernani Rosas transfere-se para o Rio de Janeiro.
- 1904 – aparece o primeiro poema datado, entre os autógrafos assinados pelo poeta, intitulado “Uma mulher perdida”.
- 1912 / 1914 – Luís de Montalvor, poeta português, esteve no Brasil e manteve contato com Ernani.
- 1915 – o poeta é convidado a colaborar na revista Orpheu , de Portugal, o que nunca se efetivou.
- 1917 – lançamento, entre amigos, no rio de janeiro, da plaquete certa lenda numa tarde.
- 1918 – lançamento, restrito, da plaquete “poema do ópio”, no Rio de Janeiro.
- 1925 – morre seu pai, passando a família por dificuldades financeiras.
- 1953 – última data registrada entre os poemas autógrafos do poeta.
- 1955 – num humilde sítio em nova iguaçu, morando em companhia da irmã berenice e dos sobrinhos, morre ernani rosas vitimado por uma síncope cardíaca.
Até mesmo imagens do poeta são raras, mas o movimento simbolista brasileiro, contou com Andrade Muricy, amistoso biógrafo de Ernani Rosas, que concentrou suas críticas ao poeta com dizeres como: “é um simbolista (…) um dos últimos da espécie hoje em dia é dos mais singulares e significativos. (…) de precedência divinatória (…) encarnação perfeita do poeta simbolista do começo do século, entre outros elogios”. (Nune, Zilma Gesser. 2009, UFSC)
Há um outro dado que merece destaque, Ernani Rosas, não era só ele, porque era também “Ritus da Cruz”, “Narciso Caspio”, “Antonio Luso”, “Narciso Luso” e “Alda Trigueiros”, seus pseudônimos. Estudos revelam que o autor desfazia este jogo de ocultamento assinando os textos com o pseudônimo e ao lado registrando seu próprio nome.
Outro aspecto da história do poeta que contribuiu para seu tardio reconhecimento se deve ao fato de muitos de seus escritos serem creditados ao poeta “Oscar Rosas”, seu pai. O professor e pesquisador Iaponan diz que a fronteira entre os dois nomes (pai e filho) não está ainda bem delineada, o que torna ainda mais interessantes estes estudos, para além do próprio valor literário. Esse pai forte está representado no poema que ernani dedica a Oscar Rosas:
Atlântida dos meus quatorze ramos, linda nau, que encalhaste nestes mares, quanta saudade tenho dos palmares, onde cantam sabiás e gaturamos! como me exulta a tua claridade e a asa do teu sol pestanejante onde já me abrigaste, tiritante, a desalmada noite da saudade! marítimo jardim d’além cismares, a cantar e a florir, de fonte em fonte, recordas um rosal, sonhando aos luares… para os insetos, para o sol nascente, quando as cínzeas gaipavas no horizonte, fecham um colar de asas no ocidente. (Ernani Rosas) (Nune, Zilma Gesser. 2009, UFSC)
O marco do resgate das obras do poeta é a publicação em 2008 do livro “Cidade do Ócio: entre sonetos e retalhos”, com a maior coletânea de seus poemas, da editora da Universidade Federal de Santa Catarina. Contudo, ainda restam manuscritos inéditos, tendo sido necessário um grande trabalho de estudos e levantamentos de seus escritos, os quais estiveram em posse de amigos e familiares por longos anos e alguns destes colacionados nos arquivos da Academia Catarinense de Letras, os quais têm desvendado a história, os sentimentos, o olhar e a importância deste poeta.
Minha escolha desta cadeira em nome do poeta catarinense Ernani Rosas acolhe e engaja-se neste movimento de valorização de obras e pessoas invisibilizadas, silenciadas, esquecidas a propósito de um projeto de sociedade que por muito tempo impôs padrão único de existência.
Agradeço a oportunidade, a acolhida e o desafio de compor esta seleta academia de letras. Estou ciente da responsabilidade de trazer contribuições ao cenário literário da nossa cidade, bem como, de ao ocupar este espaço o fazê-lo como um, dentre os demais membros em igual ministério e defesa dos livros, da leitura, da literatura, da arte e da cultura como instrumentos da transformação social.
Posso dizer que minha trajetória até aqui foi marcada por três palavras: amor, acolhida e oportunidade, as quais denoto imensurável valor de impulso vital.
Aprendi cedo o sentido e sentimento dessas palavras. Minha mãe era quem tomava minhas tarefas e exigia excelente caligrafia. Meu pai, um caminhoneiro poeta, de forte presença nas minhas escolhas. Ambos, talvez, até mesmo sem saber foram determinantes para os caminhos que percorri.
Minha mãe fez da escrita um caminho para sua maior expressão do amor – receitas de deliciosos pratos e croquis de roupas. Meu pai fez do cantar e do declamar o amor, um espaço para suavizar a imagem do caminhoneiro, do homem das atividades brutas.
Nasci mais de 100 anos após Ernani Rosas, e pasmem, encontrei um mundo que continuava a exigir das famílias um mesmo padrão de existência. O menino Joel, de trejeitos femininos, teve que passar pelo mesmo caminho que Ernani e muitas outras vidas que performam o feminino. Ernani morreu sem ter visto sua obra ser publicada. O menino afeminado, assim como os escritos de Ernani, teve que ficar por anos encaixotado, dando espaço a um homem de boa passabilidade em busca de acolhida social.
É sobre essa responsabilidade e necessária missão de fazer da oportunidade de trilhar a imortalidade pela escrita, mais um espaço de amor, acolhida e oportunidades que lancem luz a todas as formas de existência e que o aprendizado do simbolismo e o pós simbolismo (influenciadores da obra e vida do poeta) possam ser luz em tempos de obscurantismo.
Que o simbolismo marcado pela sensibilidade de ver, ler e interpretar a realidade valorizando a subjetividade, a espiritualidade e a musicalidade seja inspiração para reconectar as pessoas ao sentido da vida coletiva. Nossa atualidade, em tempos de fake news, nos impõe ainda maior habilidade de interpretação das informações, contrastando com esse valoroso instrumento da nossa língua, da nossa pluralidade e miscigenação cultural, fazendo da nossa causa um astro potente para uma outra possível sociedade.
Acredito na força das palavras, da educação, da cultura, construções coletivas e mutantes da sociedade e por isso agradeço em especial ao meu marido Diego Cabalheiro, que trilha este caminho comigo. Ele derrubou uma das últimas couraças do homem de boa passabilidade – a crença de que amizades não existem. Hoje posso rever essa crença para acreditar que a amizade é mais uma dessas forças vitais, junto ao amor, acolhida e oportunidade.
Obrigado aos amigos que sempre estiveram ao meu lado e aos novos e potentes amigos que comigo constroem projetos, ações e se conectam no propósito de impactar e quiçá – mudar vidas.
Quero aqui render aplausos aos meus confrades e confreiras que em suas trajetórias e na atuação cotidiana fazem uma cidade mais simbolista, leve e acolhedora.
Ao chegar nesta cadeira, de número 16 da Academia Itapemense de Letras, sinto que a sensibilidade do menino que expressava livremente seus sentimentos é novamente pela cultura libertada. Obrigado Ernani Rosas por nos ensinar a ler o mundo com sensibilidade. Muito Obrigado!