Senhor Presidente, confrades e confreiras, autoridades, senhoras e senhores, familiares, amigos e convidados,
É com grande alegria e profundo respeito que hoje recebemos Maria Carolina Passos como nova integrante da Academia Itapemense de Letras.
Receber uma nova acadêmica é celebrar não apenas uma trajetória individual, mas também a força da literatura como espaço de memória, reflexão, criação e pertencimento. E a história de Maria Carolina reúne, de maneira muito especial, todos esses elementos.
Nascida em Itajaí, Santa Catarina, Maria Carolina reside há cinco anos em Itapema, cidade que, mais do que um endereço, tornou-se para ela um território afetivo, de pertencimento e criação. Foi também para estreitar os laços com seu pai, Stalin Passos, escritor e figura pública de nosso município, que ela veio morar aqui.
Stalin Passos, já falecido, teve papel importante em sua formação. Desde cedo, incentivou o acesso da filha à leitura, especialmente às obras literárias e históricas. Esse estímulo contribuiu decisivamente para despertar em Maria Carolina o interesse pela palavra escrita e pela reflexão crítica sobre a realidade.
Mas é importante destacar que essa influência familiar não significou um caminho automático ou simplesmente herdado. Maria Carolina construiu, com autonomia e dedicação, uma voz autoral própria. Seu percurso intelectual e literário é resultado de trabalho, pesquisa, formação teórica contínua e participação ativa nos campos da cultura, da comunicação e da escrita.
Maria Carolina foi uma criança precoce. Aprendeu a ler e a escrever praticamente sozinha, incentivada por sua mãe, Regina, que lhe presenteava com coleções de livros e brinquedos pedagógicos. Sem perceber, foi se apropriando da leitura e, consequentemente, da escrita.
Ela lia muito e se expressava muito bem desde a mais tenra infância.
Como toda mãe, Regina também procurava ensinar à filha que, na vida, precisamos saber lidar com as diferenças e as dificuldades e, acima de tudo, buscar a felicidade.
Maria Carolina sempre teve facilidade para fazer amizades, tanto na vida acadêmica quanto na social. Muitas das amizades daquela época de escola são preservadas até hoje, demonstrando o quanto ela valoriza e cultiva esses vínculos.
Aos dezoito anos, segundo sua mãe, Maria Carolina decidiu buscar sua independência e passou a morar com uma amiga. Desde cedo, demonstrou autonomia e disposição para construir seu próprio caminho.
Como muitas pessoas na adolescência, também viveu um grande amor. Mais tarde, reencontrou seu amor da infância, que havia retornado da Austrália, país onde escolheu morar durante um período.
Maria Carolina sempre respeitou muito seu pai e desejava que ele tivesse orgulho da filha que se tornou. Temos a certeza de que Stalin Passos, in memoriam, onde quer que esteja, está profundamente orgulhoso de você.
Em 2015, Maria Carolina publicou seu primeiro livro de ficção, Blasfêmia, em coautoria com Patrícia dos Reis, pela Editora Leya. A obra, lançada em formato físico e digital durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, marcou sua entrada no cenário literário nacional.
Em Blasfêmia, Maria Carolina aborda temas de grande relevância, como os dilemas humanos, a atuação das forças sociais conservadoras, os limites entre verdade e crença e os processos de construção da identidade em contextos comunitários. São questões complexas que revelam uma autora atenta às tensões da vida social e às contradições que atravessam a experiência humana.
Em 2022, publicou Da Janela do Joelma, uma ficção histórica lançada em formato digital. A obra recebeu o terceiro lugar na categoria Melhor Enredo do Prêmio Ecos da Literatura, reconhecimento que confirmou a consistência de seu trabalho ficcional e a maturidade de seu projeto narrativo.
Como psicanalista de formação, Maria Carolina também dedica parte de sua trajetória a ajudar pessoas a compreenderem e enfrentarem suas dificuldades.
E, falando um pouco mais sobre o lado pessoal dessa mulher tão especial, há uma curiosidade que um passarinho verde me confidenciou: Maria Carolina tinha pânico de tirar sangue. Hoje, isso é algo que consegue controlar melhor, embora ainda não esteja totalmente superado.
Maria Carolina também é uma aventureira. Gosta muito de viajar, conhecer novos lugares e culturas, ampliando seus conhecimentos e suas experiências de vida.
Ao ingressar na Academia Itapemense de Letras, Maria Carolina passa a integrar uma instituição que preserva a memória cultural de nossa cidade e, ao mesmo tempo, estimula novas formas de pensar, criar e expressar o mundo.
Sua presença amplia e fortalece esta agremiação, trazendo uma trajetória marcada pela pesquisa, pela independência intelectual e pelo compromisso com a literatura.
Maria Carolina escolheu a cadeira número 32, que tem como patronesse Maura de Senna Pereira.
Maura de Senna Pereira nasceu em 10 de março de 1904 em Florianópolis, SC e faleceu no ano de 1992 no Rio de Janeiro. Foi professora, jornalista, cronista e poeta brasileira, cuja vida e carreira foram marcadas por um profundo engajamento na luta pelos direitos das mulheres.
Maura escreveu para diversos jornais, destacando-se pela coluna “Nós e o mundo”, onde utilizava sua habilidade com a escrita para abordar temas progressistas e relevantes para a sociedade da época, como o direito ao voto e ao divórcio.
Ao ocupar esta cadeira, passa também a fazer parte de uma história construída por aqueles que acreditam e vivenciam a cultura e a literatura de nossa região.
Hoje, Itapema acolhe oficialmente uma autora que já encontrou nesta cidade um lugar de afeto e convivência. E a Academia acolhe uma mulher de letras cuja caminhada honra a literatura e contribui para enriquecer a vida cultural de nosso município.
Maria Carolina receba o nosso abraço, a nossa admiração e as nossas boas-vindas. Que sua chegada represente o início de uma convivência fecunda, feita de diálogo, amizade, produção literária e compromisso com a cultura.
Que você encontre, entre estas cadeiras, não apenas uma instituição, mas uma comunidade de pensamento e de afeto. E que possa continuar fazendo da palavra uma forma de memória, liberdade e transformação.
Seja muito bem-vinda à Academia Itapemense de Letras.
Confreira Maria Carolina Passos, esta casa é sua também!