DISCURSO DOS FAMILIARES DE RITA CAROLINA WERNER WOLLINGER

Por Ana Carolina Wollinger

Boa noite a todos.

Existe uma frase bastante conhecida que diz que, ao longo da vida, toda pessoa deveria fazer três coisas: ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro.

Eu não sei quem disse isso pela primeira vez, mas, quando meu irmão me lembrou dessa frase, comecei a pensar na história da nossa mãe.

A Rita teve dois filhos, eu e o Léo. Mas quem conheceu minha mãe sabe que ela nunca limitou seu cuidado apenas a nós dois.

Ao longo da vida, ela acolheu muita gente. Teve filhos emprestados, filhos que encontrou nas salas de aula, na escola, na igreja, entre os amigos e até entre pessoas que cruzaram seu caminho por pouco tempo.

Minha mãe tinha uma capacidade muito particular de cuidar dos outros. De se preocupar, de orientar, de ajudar a resolver problemas que, muitas vezes, nem eram dela.

E, se a segunda missão era plantar uma árvore, posso dizer que minha mãe foi muito além.

Ela plantou sementes.

Sementes na educação, à qual dedicou tantos anos da sua vida. Na formação de alunos, no incentivo a professores, na defesa da escola pública e na vida de tantas famílias que encontraram nela apoio e orientação.

Plantou também sementes na política, quando decidiu ocupar espaços, defender aquilo em que acreditava e enfrentar situações que nem sempre foram fáceis.

E o mais bonito de tudo isso é que muitas dessas sementes continuam florescendo.

A gente percebe isso quando encontra um antigo aluno que ainda lembra de um conselho dela. Quando alguém nos conta uma história de acolhimento, de incentivo, de uma ajuda recebida num momento difícil.

São histórias que, muitas vezes, nem eu e meu irmão conhecíamos.

Porque existe algo muito particular em ser filho de alguém como a Rita: a sensação de ter dividido a própria mãe com uma cidade inteira.

E foi somente depois que ela partiu que começamos a compreender a dimensão de tudo o que havia construído fora da nossa casa.

Mas faltava a terceira missão: escrever um livro.

Eu não sei se isso estava nos planos dela. Minha mãe gostava muito de ler, de estudar, de aprender, mas não sabemos se algum dia pensou em escrever sua própria história.

A vida dela foi interrompida cedo demais, de uma forma que nenhum de nós estava preparado para enfrentar.

E ela não teve a oportunidade de fazer tantas coisas que ainda poderia ter feito.

Mas a vida nos reservou algo que eu considero muito especial.

Minha mãe não chegou a escrever um livro. Ela se tornou a história de um.

E acho que existe uma diferença muito bonita nisso.

Muitas pessoas escrevem livros ao longo da vida. Mas poucas deixam uma história capaz de reunir tantas outras pessoas dispostas a escrever sobre elas.

Porque, para se tornar tema de um livro como este, é preciso ter deixado alguma coisa nas pessoas. É preciso ter vivido uma história que mereça ser contada e, principalmente, lembrada.

E a Rita deixou.

Por isso, estar aqui hoje tem um significado tão grande para nossa família.

Estamos na Câmara de Vereadores de Itapema, um lugar que fez parte da história da minha mãe. Um lugar onde ela exerceu seu mandato, defendeu suas convicções, enfrentou dificuldades e procurou contribuir para a cidade que tanto amava.

Hoje, ela também faz parte da Galeria Lilás desta Casa, um reconhecimento à sua trajetória como mulher na política.

E existe algo muito simbólico em voltarmos a este mesmo espaço, tantos anos depois, não para ouvir a vereadora Rita falar, mas para ouvir outras pessoas contarem a história dela.

E isso me faz lembrar de uma expressão que ganhou ainda mais significado para mim depois do filme Ainda Estou Aqui.

Ainda estou aqui.

É uma frase tão simples, mas que diz tanta coisa sobre a memória, sobre a ausência e sobre aquilo que permanece quando alguém parte.

Porque há pessoas que continuam presentes mesmo depois de terem ido embora.

Minha mãe ainda está aqui.

Está nesta Câmara, na história política de Itapema e na lembrança das pessoas com quem trabalhou.

Está nas escolas, nos alunos que ajudou a formar, nos professores que incentivou e nas vidas que, de alguma forma, tocou.

Está na nossa família, nos valores que nos ensinou, na maneira como eu e meu irmão enxergamos o mundo e na forma como hoje tento criar meus próprios filhos.

E agora também está nas páginas deste livro.

No texto que escrevi para esta coletânea, eu disse que minha mãe era casa.

Porque, antes de ser professora, orientadora educacional, vereadora ou qualquer outra coisa, ela era a pessoa para quem eu sempre podia voltar.

E talvez seja isso que mais me emocione nesta noite.

Perceber que aquela mulher que, para mim, era casa, também foi abrigo para tantas outras pessoas.

Eu gostaria muito que ela estivesse aqui para viver este momento. Para ver esta homenagem, reencontrar tantas pessoas queridas e perceber o quanto foi importante.

Mas, já que não podemos tê-la aqui da maneira que gostaríamos, que possamos continuar fazendo aquilo que este livro se propõe a fazer: manter sua história viva.

Agradeço, de coração, a todos que participaram desta homenagem, que compartilharam suas lembranças e que ajudaram a transformar a trajetória da minha mãe em algo que poderá ser conhecido também pelas próximas gerações.

Afinal, a Rita teve filhos, plantou sementes e, mesmo sem ter escrito um livro, deixou uma história que mereceu ser escrita.

E hoje, aqui, na Câmara de Vereadores de Itapema, olhando para tudo o que ela construiu e para tantas pessoas que ainda guardam um pouco dela, eu tenho uma certeza:

Mãe, você ainda está aqui.

Muito obrigada

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