Por Juely Anete Tortato
Ana, ou Aninha de Bentão, como era conhecida, era uma menina de pele escura, grandes olhos ovalados, cabelos negros, sempre repartidos ao meio, tinha um porte de moça bonita, ágil e forte.
A pessoa em questão, chamava-se, na verdade, Ana Maria de Jesus Ribeiro, sendo o extravio de documentos oficiais, o responsável pela falta de maiores e melhores esclarecimentos a respeito dela.
Sabe-se, no entanto, que era filha de Bento Ribeiro (tratado por Bentão), um senhor tropeiro, que se casou em Lages/SC, com Maria Antunes de Jesus. Dessa união, em agosto de 1821 (1822), na localidade de Morrinhos/SC (a Sudeste de Tubarão/SC), nasceu Ana Maria.
Bentão perdeu a vida cedo, e logo após sua morte, a viúva, Dona Maria, resolveu, por questões financeiras e por um fato ocorrido, para salva a família e a filha de falatórios, casar Ana com um senhor, de nome Manoel Duarte; bom partido, tinha casa própria e estava indo bem na profissão (era sapateiro).
O fato que levou ao casamento foi a “agressão” moral de um sujeito chamado João, proferida em face de Ana, que tinha apenas 13 anos de idade, a qual para se defender acabou agredindo fisicamente o indivíduo. Tal fato teve imensa repercussão, haja vista a sociedade, o local e o ano do ocorrido. Além disso, João era um homem e Ana uma mulher.
A adolescente Ana Maria, não aceitou de bom grado a decisão, mas sem opção e com 14 anos apenas, cumpriu o acordo da mãe com o senhor Manoel. Desta feita, o Padrinho de Ana pagou o aluguel do vestido, do sapato e o casamento aconteceu, mesmo fadado a não dar muito certo.
A menina-moça amadureceu, as desavenças começaram; ele difícil, introvertido, rabugento e ciumento. Ela independente, resoluta, expansiva, valente, teimosa e a frente de seu tempo. Personalidades muito distintas contribuíram para que o casamento durasse pouco mais de um ano.
O casal já estava desintegrado quando Manoel resolveu que iria lutar ao lado da Guarda Nacional. Entretanto, Ana Maria tinha admiração pelo movimento contrário, ela torcia pelos “Farrapos”.
Não fica difícil imaginar a situação de Aninha como mulher abandonada pelo marido; que a deixou sem muita explicação e seguiu o Exército Imperial, como “Praça”, e nunca mais deu notícias.
O tempo, porém, não aguarda decisão de quem quer que seja, apenas toca em frente e cada qual cumpre sua meta. Todavia, quando o destino, misterioso, invisível e, por vezes, atrevido, faz acerto com o Cupido e planeja algo diferente, não tem quem o faça parar; numa dessas “traquinagens”, Ana Maria encontra com um “Corso” italiano de nome Giuseppe Garibaldi. Esse momento inusitado aconteceu na casa do senhor João Duarte (parente do Manoel sapateiro), quando ela estava fazendo café e um convidado do anfitrião chegou e, frente a frente, ambos sentiram algo diferente, que chamaremos de “atração”.
Garibaldi, foi a primeira pessoa a chamá-la de “Anita”.
Em outubro de 1839, com 18 anos, Anita ouve e pensa sobre todas as falas e argumentos de Garibaldi, a respeito dos dissabores e riscos do “mar desconhecido”, das lutas sangrentas que poderiam ocorrer e nega todas as possibilidades e opções de ficar em terra. Tal disposição quebrou a resistência do coração do “marujo” e ela embarcou na “Nau Capitania Rio Pardo” com o homem que escolheu para amar, lutar e viver.
Na noite de 04 de agosto de 1849, às 19 horas e 45 minutos, Garibaldi segurou, pela última vez, a mão de Anita; ela tinha 27 (29) anos de idade quando morreu, próximo à “Fazenda Guiccioli”, onde, numa pequena elevação de areia, há 800 metros da sede da fazenda, foi sepultada. Ali permaneceu até 1872, quando um monumento, projetado pelo escultor Mario Rutelli, foi erguido em sua homenagem, a poucos metros do de seu marido, na cidade de Roma no ano de 1932.
Assim, o tempo mostra que não esquece dessa mulher brasileira, guerreira valente, destemida, inspiradora, que é, por toda sua história, reconhecida como HEROÍNA DE DOIS MUNDOS.